Pesquisa revela padrão de consumo semelhante entre alimentos ultraprocessados e cigarros

Pesquisas recentes apontam que alimentos ultraprocessados podem provocar padrões de consumo que lembram comportamentos associados ao tabagismo, segundo estudos citados por especialistas. A comparação tem relação com a presença de aditivos e com a engenharia sensorial desses produtos, que potencializam a ativação do sistema de recompensa cerebral.

O que são ultraprocessados e por que são tão consumidos?

Alimentos ultraprocessados são preparações industriais que combinam ingredientes de origem alimentar com substâncias sintéticas — como espessantes, corantes, aromatizantes e edulcorantes. Esses itens passam por etapas como refino, moagem, extrusão e aquecimento em altas temperaturas para se transformarem em produtos prontos para consumo, com sabor padronizado e preparo rápido.

Semelhanças com o cigarro: como ocorre

Pesquisadores destacam que tanto a indústria de tabaco quanto a de ultraprocessados empregam práticas de “design” dos produtos para maximizar a ativação do circuito de recompensa do cérebro. No caso dos alimentos, combinações de açúcar, gordura e sal, junto a aditivos, são formuladas para gerar prazer imediato e repetido. Esse processo aumenta a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de recompensa, e pode levar à repetição frequente do consumo mesmo na ausência de fome fisiológica.

Especialistas descrevem esse comportamento como um padrão de comer compulsivo provocado por produtos de alta palatabilidade, distintos dos alimentos in natura. Embora haja debate sobre o uso do termo “vício” para alimentos, existe consenso de que ultraprocessados foram desenvolvidos para incentivar ingestão regular e em grandes quantidades, criando um ciclo de consumo difícil de interromper, com paralelos observáveis no tabaco.

Quais aditivos aumentam a atratividade?

Diferentemente de preparações caseiras, muitos ultraprocessados trazem uma lista extensa de ingredientes pouco familiares. Destacam-se:

  • Estabilizantes, que mantêm a consistência;
  • Emulsificantes, que unem água e gordura para textura uniforme;
  • Realçadores de sabor, como glutamato monossódico, que intensificam gostos;
  • Corantes e aromatizantes, que reproduzem aparência e cheiro de alimentos frescos.

Além de conservar, esses insumos ajustam textura, crocância, doçura e salinidade a níveis pouco comuns em cozinhas domésticas. Adoçantes artificiais e edulcorantes de alta potência podem acostumar o paladar a níveis elevados de doce, dificultando a aceitação de frutas e preparações menos açucaradas. Pesquisas também investigam efeitos de alguns emulsificantes e espessantes sobre a microbiota intestinal, com possíveis repercussões em inflamação, imunidade e controle do apetite.

Riscos à saúde associados

Estudos da última década relacionam dietas ricas em ultraprocessados a diversos problemas de saúde, entre eles:

  • Aumento da incidência de obesidade e sobrepeso;
  • Maior risco de diabetes tipo 2 e alterações na resistência à insulina;
  • Elevação de casos de hipertensão e doenças cardiovasculares;
  • Associação populacional com alguns tipos de câncer;
  • Piora em quadros de ansiedade e alterações de humor ligadas ao consumo excessivo de açúcares e aditivos.

Como identificar ultraprocessados no dia a dia

Alguns indicativos na embalagem ajudam a reconhecer esses produtos:

  1. Lista de ingredientes extensa, com muitos nomes pouco familiares;
  2. Presença de aromatizantes, corantes, emulsificantes, espessantes ou realçadores de sabor;
  3. Termos como “sabor artificial”, “pronto para consumo” ou “pronto para aquecer”;
  4. Prazo de validade longo, que pode se estender por meses ou anos.

Exemplos comuns incluem refrigerantes, salgadinhos de pacote, bolachas recheadas, nuggets, salsichas, refeições congeladas prontas, cereais matinais açucarados e bebidas lácteas com muitos aditivos. Uma regra prática é considerar se o alimento poderia ser facilmente feito em casa com ingredientes conhecidos; se não, há grande chance de ser ultraprocessado.

FAQ — perguntas frequentes

1. Comer processados somente nos fins de semana faz mal?
O consumo eventual e em pequenas quantidades, dentro de uma dieta predominantemente baseada em alimentos in natura, tende a ter menor impacto. O problema ocorre quando o consumo ocasional se torna frequente, mesmo concentrado em poucos dias, contribuindo para ganho de peso e alterações metabólicas.

2. Produtos “fit”, “zero açúcar” ou “integral” podem ser ultraprocessados?
Sim. Rótulos com apelos como “zero”, “light”, “proteico” ou “integral” não impedem que o produto seja ultraprocessado, já que a classificação depende do grau de processamento e da formulação industrial, não apenas do teor de calorias ou açúcar.

3. Crianças podem consumir processados em pequenas quantidades?
Do ponto de vista de saúde pública, recomenda-se que o consumo na infância seja o mais raro possível, pois essa fase é crucial para a formação do paladar e dos hábitos alimentares. Quando ocorrer, o ideal é que seja realmente ocasional e em porções reduzidas.

4. Ultraprocessados são sempre mais baratos que opções naturais?
Nem sempre. Itens como arroz, feijão, ovos, legumes da estação e frutas locais podem ser mais econômicos por porção do que refeições prontas e snacks. A praticidade é o fator que geralmente pesa a favor dos ultraprocessados.

5. Existe uma quantidade “segura” de ultraprocessados na dieta?
Não há um número universal. Guias alimentares recomendam evitar esses produtos e reduzi-los ao mínimo possível. Uma estratégia prática é compor a maior parte das refeições com alimentos in natura ou minimamente processados e reservar ultraprocessados para ocasiões pontuais, controlando frequência e porção.

O consumo desses produtos e os potenciais efeitos à saúde têm motivado debates entre profissionais de saúde e órgãos reguladores em diferentes países.

Com informações de Correiobraziliense

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By Diario de Brasilia

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